
O Brasil registrou 84.760 casos de desaparecimento de pessoas em 2025, o que equivale a 232 sumiços diários, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O número representa um aumento de 4,1% em relação a 2024, quando foram contabilizados 81.406 ocorrências, evidenciando a escalada contínua do problema apesar da criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas em 2019.
O que causou o aumento nos desaparecimentos? A coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes/UnB), Simone Rodrigues, explica que os dados oficiais não refletem a realidade completa devido à subnotificação. "Há um consenso de que a queda momentânea em 2020 e 2021 foi causada pela pandemia, pelo fato das pessoas terem que ficar em casa", afirmou. Desde 2015, o total só recuou nesses anos, com 63.151 e 67.362 casos, respectivamente.
Qual o impacto da Política Nacional? A legislação, que completa quase sete anos em 2026, "ainda engatinha", segundo Simone. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidos, criado apenas em 2025, tem baixa adesão: apenas 12 dos 27 estados estão integrados, incluindo a Bahia. A falta de interoperabilidade entre sistemas estaduais e o "preconceito institucional" nas delegacias, como o mito de esperar 24 ou 48 horas para registrar sumiços, dificultam as buscas.
Como estão os casos de crianças e adolescentes? Em 2025, 28% dos desaparecidos tinham menos de 18 anos, com um aumento de 8% nessa faixa etária em relação a 2024. Entre os jovens, a maioria (62%) são meninas, muitas fugindo de violência intrafamiliar. A especialista destaca a necessidade de sensibilidade do Estado para não reexpor as vítimas a contextos perigosos.
O que diz o Ministério da Justiça? A pasta reconhece a subnotificação e pondera que o aumento de 4% "não significa, necessariamente, um crescimento real dos casos". Em nota, afirmou que trabalha para estruturar a política nacional, com expectativa de integrar todos os estados ao cadastro até o primeiro semestre de 2026.
Os números de 2025, com 56.688 pessoas localizadas (alta de 2% frente a 2024), mostram avanços nas estratégias de busca, mas a complexidade do problema persiste. Casos como o da corretora Daiane Alves de Souza, encontrada morta em Caldas Novas (GO) após desaparecer em dezembro de 2025, ilustram a gravidade. Para Simone Rodrigues, a solução requer ajustes na política, maior integração de dados e combate a estereótipos, garantindo que toda pessoa desaparecida, especialmente crianças e adolescentes, seja buscada sem prejulgamentos.